O Rio de Janeiro é o símbolo postal e praticamente a capital do Brasil para os estrangeiros, que só sabem falar em “Samba” e “Rio de Janeiro” ao ouvir o nome da nossa querida nação tupiniquim. É no Rio, a cidade da beleza, onde se concentram muitas novelas, onde todo mundo quer ir tomar banho de praia – afinal todo brasileiro patriota tem que desfilar pela areia e se enfiar na água cheia de resíduos fecais de Copacabana -, e onde todo mundo parece estar eternamente de férias. Mas, como diz a conhecida canção, o Rio não é apenas cidade da beleza, mas também do caos.
Nesta semana, as manchetes de jornais e revistas apenas comprovaram tal fama. O Rio enfrenta essa semana uma semi-guerra civil onde traficantes e polícia disputam o controle sobre os territórios de algumas favelas cariocas, conflito este motivado pelo escarcéu que a bandidagem tem feito há alguns dias para dizer que “pode”, queimando carros, ônibus e qualquer objetivo grande e inflamável que apareça pela cidade. Bem, pelo menos para mim, que me considero uma pessoa bem sana, é loucura afirmar que o Rio de Janeiro tem capacidade de sediar olimpíadas e copa do mundo em um prazo tão curto com total segurança.
Basta assistir ao noticiário para se enxergar um cenário realmente preocupante. É quase tão ruim quanto os ataques do PCC em São Paulo há alguns anos. Foram necessários tanques de guerra para adentrar em favelas dominadas por traficantes de drogas, onde os ditos bandidos desfilavam e posavam para câmeras aéreas com armamento bélico nas mãos. Todos dizem que será tanquila a copa do mundo e também as olimpíadas, mas não seria prepotência afirmar isso? Centenas de traficantes, ao menos trezentos deles, corriam por um morro carioca numa imagem exibida pelo noticiário, com armas que devem usar no Afeganistão. E todos sabem que apenas quatro anos não é muito para executar um planejamento na segurança de porte suficiente para deter tantos bandidos. Eram nada menos de três centenas de homens segurando fuzis correndo pela rua no meio da tarde. E a matança já está profetizada, pois o comandante da operação afirmou ao vivo em rede nacional “Nós garantimos à todos que vamos pegá-los, não importa quanto tempo leve.”. Não sei como cabe para outras pessoas mas para mim, isso soou mais como um aviso aos trombadinhas dos morros, algo como “Vão logo cavando as suas covas.”.
Imagino como os moradores da cidade devem se sentir. Todo mundo sabe que o Rio não é o paraíso da segurança, mas depois do BOPE inteiro ter se reunido junto com as outras polícias e usado tanques de guerra com metralhadoras que podem disparar até mil balas por minuto em plena cidade, os cariocas devem estar se sentindo como se descobrissem que a redoma de vidro que lhes cercava era apenas uma bolha de sabão frágil, que acaba de explodir.
Rio, maravilhoso, bonito, alto-astral, cidade do caos. O bem vence o mal, como disseram mil vezes os entrevistados do jornal. E embora não acredite na divisão entre bem e mal, quero assim como todos acreditar nisso. Fluminenses devem estar sem dormir à noite com a paranóia na cabeça e sirenes nos ouvidos, e eu só dizer que é nessas horas que o Cristo Redentor serve de alguma coisa que não seja fazer charme. Talvez alguém pense quando olha para ele, enquanto o caveirão do BOPE passa pela rua, que o Cristo abre os braços para lhe dar esperança e dizer que Deus olha pela cidade do caos. Que o Cristo abra seus braços ao Rio de Janeiro, e que a cidade do caos volte a ser maravilhosa.