Você não acha mais que os mamutes vivem em algum lugar perto de onde os Teletubies moram e que pasta de amendoim vende no supermercado e é gostoso mas a sua mãe não compra porque ela é mão-de-vaca natureba. É a época onde você não quer saber mais de Discovery Kids e seus pais dão graças à deus por puderem ir pro cinema para assistir alguma coisa que não é Shrek e nem Toy Story. E, é claro, você anda seriamente interessado em trocar milhões de bactérias com alguém que tem a cara tão oleosa e tão cheia de espinhas quanto a sua, num ritual gosmento e que envolve, em algumas ocasiões, bafo de cebola e troca de chiclete, chamado beijo. Não se preocupe, você não está sendo afetado por algum tipo de tecnologia misteriosa alienígena como o Ben 10. Você está virando adolescente!
Uma das coisas que envolve a adolescência é a tal da discussão. Antes, quando você brigava com a sua melhor amiga porque ela mordeu o olho da sua boneca sem permissão. Você ia de cara emburrada até o banheiro e quando volta, vocês já estavam mordendo a boneca juntas de novo. Agora, quando você briga com a sua amiga porque ela anda arrastando asa pro seu boyzinho, você chama ela de trabalhadora da night, puxa-lhe os cabelos e manda ela ir fazer coisas pornográficas e não voltar nunca mais. Não que isso tenha acontecido comigo, mas o ponto é o seguinte: quando a gente cresce, discussões vêm à tona o tempo inteiro e quase sempre parecem imperdoáveis. E alguém sabe explicar por quê? Bem, é difícil, é difícil. Mas por aí a gente entende porque Freud gostava tanto de estudar a infância: acho que ele não tinha muito saco de escutar as suas pacientes dizerem que amavam a amiga e na sessão seguinte chegarem dizendo que ela agora era a finada. Ver uma criança fazendo cocô e entender que ela gosta de fazer cocô é mais fácil do que entender porque essas malditas relações de amizade adolescente parecem sempre estar entre tapas e beijos.
Bem, chegamos a conclusão de que adolescente é barraqueiro. Acho que isso se deve porque já não somos tão influenciáveis quanto éramos quando crianças. Agora pensamos com nossos próprios cérebros, e somos teimosos. Pintamos as nossas unhas de vermelho mesmo que a mãe desaprove, e às vezes saímos com aquele vizinho que a mãe acha que é trombadinha. E não estamos nem aí. Ficamos jogando as coisas erradas debaixo do tapete, como se nunca tivéssemos feito aquilo e falamos mais sobre nossas vidas com nossos amigos do que com nossos pais. Mudamos em 180 graus. E quando alguém vem fazer o que a gente não gosta, vamos defender as nossas opiniões, afinal o seu inimigo não tem mais a arma contar pros seus pais o que você fez, porque, sinceramente, você já perdeu há muito o medo dos seus pais. E eles não podem mais te proibir de assistir Barney, porque você não assiste mais Barney!
Forças estranhas chamadas hormônios fazem isso junto aos pais que cada dia nos cobram mais, somados aos professores que com a desculpa de que "vocês não são mais crianças" passam tantas tarefas de casa que poderiam encher a caçamba de um caminhão. Hormônios + pais não compreensivos + teachers loucos = stress. E por mais injusto que seja, a gente tende a descarregar em quem não tem nada haver, bigando com os amigos. Tudo bem que às vezes os nossos amigos fazem umas merdas caquinhas que acabam gerando as discussões, mas eu já vi gente brigar por causa de uma borracha velha e suja. E eu falo brigar de levantar a voz e estar a ponto de puxar cabelos. Gente, por favor, não vamos brigar por causa de borrachas semi-inúteis, ok?
E pode ser que a gente brigue, mas no fim, a infância que rejeitamos tanto ainda vive dentro de nós. A gente acaba perdoando os erros e as merdas caquinhas que nós e nossos amigos fazemos, que nem as meninhas que voltaram a morder a boneca juntas. Vamos sempre discutir, de todas as maneiras e jeitos. Às vezes a gente perdoa, às vezes não, mas a gente briga e arranja um jeito de fazer as pazes e mais uma vez, voltar a trocar tantos torpedos que nossos pais chegam no fim do mês berrando com uma conta telefônica que mais parece nota fiscal de supermercado na mão. E eu vou dizer uma coisa: vamos continuar fazendo isso até o fim dos tempos, porque do jeito que Freud não entendia, acho que ninguém vai descobrir por que adolescente briga tanto. Até lá, tentemos não nos atracar por causa de borrachas.