sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Discussões

  Você não acha mais que os mamutes vivem em algum lugar perto de onde os Teletubies moram e que pasta de amendoim vende no supermercado e é gostoso mas a sua mãe não compra porque ela é  mão-de-vaca natureba. É a época onde você não quer saber mais de Discovery Kids e seus pais dão graças à deus por puderem ir pro cinema para assistir alguma coisa que não é Shrek e nem Toy Story. E, é claro, você anda seriamente interessado em trocar milhões de bactérias com alguém que tem a cara tão oleosa e tão cheia de espinhas quanto a sua, num ritual gosmento e que envolve, em algumas ocasiões, bafo de cebola e troca de chiclete, chamado beijo. Não se preocupe, você não está sendo afetado por algum tipo de tecnologia misteriosa alienígena como o Ben 10. Você está virando adolescente!
  Uma das coisas que envolve a adolescência é a tal da discussão. Antes, quando você brigava com a sua melhor amiga porque ela mordeu o olho da sua boneca sem permissão. Você ia de cara emburrada até o banheiro e quando volta, vocês já estavam mordendo a boneca juntas de novo. Agora, quando você briga com a sua amiga porque ela anda arrastando asa pro seu boyzinho, você chama ela de trabalhadora da night, puxa-lhe os cabelos e manda ela ir fazer coisas pornográficas e não voltar nunca mais. Não que isso tenha acontecido comigo, mas o ponto é o seguinte: quando a gente cresce, discussões vêm à tona o tempo inteiro e quase sempre parecem imperdoáveis. E alguém sabe explicar por quê? Bem, é difícil, é difícil. Mas por aí a gente entende porque Freud gostava tanto de estudar a infância: acho que ele não tinha muito saco de escutar as suas pacientes dizerem que amavam a amiga e na sessão seguinte chegarem dizendo que ela agora era a finada. Ver uma criança fazendo cocô e entender que ela gosta de fazer cocô é mais fácil do que entender porque essas malditas relações de amizade adolescente parecem sempre estar entre tapas e beijos.
   Bem, chegamos a conclusão de que adolescente é barraqueiro. Acho que isso se deve porque já não somos tão influenciáveis quanto éramos quando crianças. Agora pensamos com nossos próprios cérebros, e somos teimosos. Pintamos as nossas unhas de vermelho mesmo que a mãe desaprove, e às vezes saímos com aquele vizinho que a mãe acha que é trombadinha. E não estamos nem aí. Ficamos jogando as coisas erradas debaixo do tapete, como se nunca tivéssemos feito aquilo e falamos mais sobre nossas vidas com nossos amigos do que com nossos pais. Mudamos em 180 graus. E quando alguém vem fazer o que a gente não gosta, vamos defender as nossas opiniões, afinal o seu inimigo não tem mais a arma contar pros seus pais o que você fez, porque, sinceramente, você já perdeu há muito o medo dos seus pais. E eles não podem mais te proibir de assistir Barney, porque você não assiste mais Barney!
  Forças estranhas chamadas hormônios fazem isso junto aos pais que cada dia nos cobram mais, somados aos professores que com a desculpa de que "vocês não são mais crianças" passam tantas tarefas de casa que poderiam encher a caçamba de um caminhão. Hormônios + pais não compreensivos + teachers loucos = stress. E por mais injusto que seja, a gente tende a descarregar em quem não tem nada haver, bigando com os amigos. Tudo bem que às vezes os nossos amigos fazem umas  merdas caquinhas que acabam gerando as discussões, mas eu já vi gente brigar por causa de uma borracha velha e suja. E eu falo brigar de levantar a voz e estar a ponto de puxar cabelos. Gente, por favor, não vamos brigar por causa de borrachas semi-inúteis, ok?
  E pode ser que a gente brigue, mas no fim, a infância que rejeitamos tanto ainda vive dentro de nós. A gente acaba perdoando os erros e as merdas caquinhas que nós e nossos amigos fazemos, que nem as meninhas que voltaram a morder a boneca juntas. Vamos sempre discutir, de todas as maneiras e jeitos. Às vezes a gente perdoa, às vezes não, mas  a gente briga e arranja um jeito de fazer as pazes e mais uma vez, voltar a trocar tantos torpedos que nossos pais chegam no fim do mês berrando com uma conta telefônica que mais parece nota fiscal de supermercado na mão. E eu vou dizer uma coisa: vamos continuar fazendo isso até o fim dos tempos, porque do jeito que Freud não entendia, acho que ninguém vai descobrir por que adolescente briga tanto. Até lá, tentemos não nos atracar por causa de borrachas.

Pressão Máxima

 Testes, em geral e estereotipando são uma coisa bem estressante. Acho que a maioria de nós já está acostumado, mas te colocar numa sala sem direto à ir ao banheiro, beber água, em silêncio absoluto, sem poder manter nenhum contato com ninguém, nem o seu amiguinho imaginário se você for autista, já é uma coisa estressante. Imagina só quando você é submetido à todos esses fatores + uma concorrência desleal que reza pra que você morra de algum tipo de acidente macabro pra você ser um a menos na concorrência? É difícil, é difícil.
  Cheguei no pátio do colégio em que ia fazer o teste. Minha mãe vinha logo atrás, calmíssima. Logo que entramos, ela soltou uma piadinha que me fez rir. Acho que eu era a única pessoa rindo ali. Tinha uma mãe que dizia para a sua filha, que eu acho que era mais nova que eu: "Você vai passar, minha filha! Você estudou muito pra isso, eu sei que vai!". Querida, lembre-se que quem faz o teste é a sua filha, e não você. Fizeram a chamada, e em filinha indiana, nos levaram até as salas, como se fóssemos do maternal. Todos se sentam, e as fiscais, duas mulheres loiras e bonitas com sorrisos que de tão grandes pareciam de duendes entregaram as provas.
  Uma fiscal começa: "Muito bem, desliguem os celulares, guardem os estojos, quero só seus lápis, borrachas e canetas em cima da mesa. Ah, e se você for pego olhando pra prova do coleguinha...nós vamos tirar a sua", Tia, uma coisa. Todas as criaturas fêmeas da sala já menstruaram e todos os machos se trancam no banheiro com playboy ou com aquela revista que o Kaká apareceu com jeans de zíper aberto. Poupe-nos desses coleguinhas e guarde-os pro seus netinhos. "Ah, e não precisam ficar nervosos! Isso não é um vestibular ou um ENEM, é um teste de admissão....". ATENÇÃO FISCAIS DE PLANTÃO: Poupem-nos disso. Ninguém dá ouvidos à vocês. Na verdade, as pessoas estão pensando coisas como "tomara que alguém não saiba essa questão. Menos um!"quando vocês dizem isso. Então, se não querem pilhas de nervos cada vez maiores lhe fazendo perguntas a cada instante, apenas calem a boca.
 Claro que eu disse meu mantra interno que eu repito antes de todas as provas: "Esvazia a cabeça. É só uma prova", mas não adiantou. Errei a primeira questão de certeza e estava tão nervosa que não conseguia pensar na resposta das questões mais simples. Olhei à minha volta. Meus coleguinhas de teste praticamente se deitavam sobre o papel e cercavam a bedita folha com os braços, como um guerreiro que faz uma muralha para que o inimigo não vizualize seu território. Perguntas inundavam o ar, e a fiscal repetia aquele eterno discurso que todo professor TEM que dizer: "Sabe o que é? É que me dá uma amnésia em dia de prova....!".
  Uma coisinha que tinha os cabelos na bunda e uma blusa que eu tenho certeza que custou a minha mesada de dois meses inteiros, do tipo que faz qualquer menino dar um belo fiu-fiu, mordia o lápis de metal com tanta força que eu já podia ver pontinhos pretos na pontinha prateda. Um outro menino lá atrás estava tão pálido que eu achei que ele e o papel eram gêmeos siameses. Um menino baixinho, coitado, chorava tanto que os seus olhos estavam como duas bolas de fogo. Saiu da sala direto pra a enfermaria.
  Foram quase três horas, porque é um teste de admissão. Assuntos que eu só vou aprender no próximo ano se misturavam com outros que eu já aprendi há tanto tempo que não sei nem pra quê servem. Vi muita gente entregar páginas em branco, acho que só para sair da sala, e no fim eu já estava de saco tão cheio que esqueci de corrigir uma questão que eu sabia que estava errada. Ao entregar a prova, uma fiscal sussurrou no ouvido da outra alguma coisa envolvendo meu nome que me fez entrar em paranóia pelo resto do dia: será que ela acha que eu colei de alguém? Será que eu estou desclassificada? SERÁ QUE COLARAM DE MIM E EU NEM PERCEBI?!
 Bem, a gente faz pova mas não devia fazer. Aluno significa sem luz em latim, e prova eu não sei, mas deve ser algo como tortura em letras. E a concorrência está matando hoje em dia. E a mulher que num dia desses matou dois concorrentes para conseguir uma vaga num concurso público que o diga.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Um Show Pra Toda a Vida

  Claro que quando uma banda fuderosa vem parar num fim de mundo vai ser um fenômeno. Pessoas acostumadas a viver esquecidas e com shows emocionantes de Nando Cordel, Rita Lee e Titãs não vão vibrar. Vão explodir. Nada contra Nandito, Ritinha e Belotto e sua trupe, mas é que realmente, temos que admitir que nas terras do Leão do Norte, a abstinência de grandes atrações internacionais faz com que a apresentação do cover dos Beatles seja um grande acontecimento. Não estou denegrindo os shows de MPB, mas vamos admitir que os ícones da minha juventude e da juventude atual não são os Titãs e os Paralamas, com nos anos 80. Somos obrigados a admitir, querendo ou não, que Lady Gaga e Beyonce são muito mais apreciados que as bandas nacionais. E não vale dizer que Restart está com tudo, porque a influência deles nunca vai chegar à das bandas americanas.
  E é claro que nem que fosse uma criatura que já não está tão no auge como a querida Cristina Aguilhera ou alguém que nunca alcançou um sucesso muito grande pelas terras tupiniquins como a Ciara faria uma casa de show lotada.
  Se é assim, como seria com uma grande banda da atualidade como The Black Eyed Peas? Simplesmente, com a melhor expressão que posso achar, um Boom Boom Pow!
  Casa cheia, gente se agarrando, fila para os agradáveis banheiros químicos fazendo cobrinha e o agradável e distante cheirinho de maconha no ar em alguns instantes. Bêbados imitando macacos e um tapado insensível fazendo uma namorada furiosa ao berrar "FERGIE, EU TE AMO, PORRA!" para todo mundo ouvir. E é claro, só deu Fergie. Fazendo todo mundo se emocionar e cantar berrando com uma bela apresentação de Big Girls Don't Cry, ela simplesmente foi a rainha da noite. Will-I-Am não fez faltar elogios ao Brasil. Prometeu que ano que vem voltava, que compraria uma casa e que queria morar por aqui pelo resto da vida. Elogiou claro, as sexy samba dancers from Recife, e como é gringo está perdoado. Mas acho que se ele resolver vir pras terras brazucas mesmo, vai entender que não há muitos brasileiros que tenham samba no pé tirando os cariocas. Foi mal , Willie, mas por aqui o hit é frevo.
  As melhores partes da festa foram: o curioso movimento que Fergie consegue fazer com os seios sem ajuda de nada além dos prórpios músculos, o rap das armas que Will-I-Am rodou numa hora em que fez remixagens com as músicas mais inusitadas, e é claro, a linda interpretação de Where Is The Love? que contou de corações feitos com as mãos do público estendidos no ar e depois com celulares ao alto, que de loge pareciam velas emanado luz dignas de filmes românticos.
  Com um final estrondoso com I Gotta Feeling, a banda agradeceu ao público e descreveu sua turnê pelo Brasil como um sonho realizado, um voo muito alto. Bem, verdade ou não, só há algo que eu posso dizer:
se eles não realizaram um sonho para si, realizaram um dos meus pra mim.