sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Pressão Máxima

 Testes, em geral e estereotipando são uma coisa bem estressante. Acho que a maioria de nós já está acostumado, mas te colocar numa sala sem direto à ir ao banheiro, beber água, em silêncio absoluto, sem poder manter nenhum contato com ninguém, nem o seu amiguinho imaginário se você for autista, já é uma coisa estressante. Imagina só quando você é submetido à todos esses fatores + uma concorrência desleal que reza pra que você morra de algum tipo de acidente macabro pra você ser um a menos na concorrência? É difícil, é difícil.
  Cheguei no pátio do colégio em que ia fazer o teste. Minha mãe vinha logo atrás, calmíssima. Logo que entramos, ela soltou uma piadinha que me fez rir. Acho que eu era a única pessoa rindo ali. Tinha uma mãe que dizia para a sua filha, que eu acho que era mais nova que eu: "Você vai passar, minha filha! Você estudou muito pra isso, eu sei que vai!". Querida, lembre-se que quem faz o teste é a sua filha, e não você. Fizeram a chamada, e em filinha indiana, nos levaram até as salas, como se fóssemos do maternal. Todos se sentam, e as fiscais, duas mulheres loiras e bonitas com sorrisos que de tão grandes pareciam de duendes entregaram as provas.
  Uma fiscal começa: "Muito bem, desliguem os celulares, guardem os estojos, quero só seus lápis, borrachas e canetas em cima da mesa. Ah, e se você for pego olhando pra prova do coleguinha...nós vamos tirar a sua", Tia, uma coisa. Todas as criaturas fêmeas da sala já menstruaram e todos os machos se trancam no banheiro com playboy ou com aquela revista que o Kaká apareceu com jeans de zíper aberto. Poupe-nos desses coleguinhas e guarde-os pro seus netinhos. "Ah, e não precisam ficar nervosos! Isso não é um vestibular ou um ENEM, é um teste de admissão....". ATENÇÃO FISCAIS DE PLANTÃO: Poupem-nos disso. Ninguém dá ouvidos à vocês. Na verdade, as pessoas estão pensando coisas como "tomara que alguém não saiba essa questão. Menos um!"quando vocês dizem isso. Então, se não querem pilhas de nervos cada vez maiores lhe fazendo perguntas a cada instante, apenas calem a boca.
 Claro que eu disse meu mantra interno que eu repito antes de todas as provas: "Esvazia a cabeça. É só uma prova", mas não adiantou. Errei a primeira questão de certeza e estava tão nervosa que não conseguia pensar na resposta das questões mais simples. Olhei à minha volta. Meus coleguinhas de teste praticamente se deitavam sobre o papel e cercavam a bedita folha com os braços, como um guerreiro que faz uma muralha para que o inimigo não vizualize seu território. Perguntas inundavam o ar, e a fiscal repetia aquele eterno discurso que todo professor TEM que dizer: "Sabe o que é? É que me dá uma amnésia em dia de prova....!".
  Uma coisinha que tinha os cabelos na bunda e uma blusa que eu tenho certeza que custou a minha mesada de dois meses inteiros, do tipo que faz qualquer menino dar um belo fiu-fiu, mordia o lápis de metal com tanta força que eu já podia ver pontinhos pretos na pontinha prateda. Um outro menino lá atrás estava tão pálido que eu achei que ele e o papel eram gêmeos siameses. Um menino baixinho, coitado, chorava tanto que os seus olhos estavam como duas bolas de fogo. Saiu da sala direto pra a enfermaria.
  Foram quase três horas, porque é um teste de admissão. Assuntos que eu só vou aprender no próximo ano se misturavam com outros que eu já aprendi há tanto tempo que não sei nem pra quê servem. Vi muita gente entregar páginas em branco, acho que só para sair da sala, e no fim eu já estava de saco tão cheio que esqueci de corrigir uma questão que eu sabia que estava errada. Ao entregar a prova, uma fiscal sussurrou no ouvido da outra alguma coisa envolvendo meu nome que me fez entrar em paranóia pelo resto do dia: será que ela acha que eu colei de alguém? Será que eu estou desclassificada? SERÁ QUE COLARAM DE MIM E EU NEM PERCEBI?!
 Bem, a gente faz pova mas não devia fazer. Aluno significa sem luz em latim, e prova eu não sei, mas deve ser algo como tortura em letras. E a concorrência está matando hoje em dia. E a mulher que num dia desses matou dois concorrentes para conseguir uma vaga num concurso público que o diga.

Nenhum comentário: